sexta-feira, 19 de novembro de 2021

10 anos sem Raberuan.

 



O Raberuan nos deixou. Certamente não da forma que ele queria, nem na hora que a gente queria. Talvez um colapso em cima do palco, um acidente ou até uma overdose de qualquer coisa, menos cama, hospital e sofrimento. Qualquer coisa, menos a imagem de um pequeno gênio, que ele foi, à mercê da sorte e da misericórdia, com o semblante mostrando toda a fragilidade de quem sabe que está perdendo a luta pela vida. O Raberuan que conheci em 79 quando esteve em minha casa junto com seu parceiro Sacha Arcanjo, me pareceu mais uma daquelas figuras frágeis que vivem da ilusão da poesia, do mundo de paz e amor, da inconseqüência da juventude, que pedem ponta de cigarro ou de baseado, não usam relógio e quase sempre carregam um violão qualquer com um adesivo ou frase dos anos sessenta em seu bojo. Mas aqueles olhos brilhantes, os cabelos encaracolados, a suavidade na voz que vez por outra dizia uma gíria da minha vila e o fino trato com as cordas e com as palavras, me mostraram que ali, bem à minha frente estava sim, uma das figuras mais emblemáticas e inquietas que eu iria conhecer pelo resto de minha vida. Tempos depois, com maior convivência e com a chance de conhecer de perto sua arte, em todos os sentidos, logo cheguei à conclusão que ele tinha sido colocado em lugar errado e que estava jogando fora um talento que Deus permite a poucos mortais, à medida em que o tempo passou. Acho que eu sempre estive certo. O tempo passa muito rápido, é cruel, e geralmente castiga quem pega o caminho errado. Ele nos fazia parecer ridículos, às vezes, sem maldade e achá-lo arrogante. Quase sempre por falta de senso, ou por orgulho de quem nasceu limitado. Viveu intensamente seus relacionamentos sem medir conseqüências e, tenho certeza, foi um cara muito amado durante toda a sua vida. Não quero nesse momento falar de sua música, que bem conheço, de seus parceiros, que também conheço, nem de sua vida pessoal, que pouco ou nada conheço. Quero sim, tentar amenizar esse golpe que só sente quem de fato conheceu esse magrelo de Ermelino Matarazzo nas noitadas, nas cantorias de palco de praça e de rua, nas viagens, nas conversas travadas em verso e prosa, que ele muito gostava, quem andou lado a lado falando das mazelas da vida, do amor, da dor, da fome e do sonho da fartura. Do sucesso e da realidade. Muitos pensam terem sido seu amigo, sem saber que, na verdade, ele sim é que escolhia suas amizades a quem se entregava com dedicação. Infelizmente tenho que dizer que amigos de fato, Raberuan teve poucos. Aqueles que receberam seu carinho incondicional sabem do que estou falando. Privilegiados, sim aqueles que tiveram o prazer de ficar próximo e absorver um pouco de sua energia singular. Feliz de quem ouviu suas canções entoadas ao vivo na esquina, sentados no meio fio, no quintal do Sacha, ou na sala do Akira. Na rua, na praça, no trem, em qualquer lugar simples onde o gênio de fato se sente bem. Privilegiados, também, aqueles que tiveram chance de conversar, conhecer e aprender com esse cara que, com certeza teria sido amigo de Lou Reed, Iggy Pop, Janis, Baudelaire ou Augusto dos Anjos se tivesse nascido próximo a eles, pelo grau de inquietação que o torna parecido com pessoas desse gênero. Mas surgiu em outro tempo, outro lugar e escolheu Sacha, Akira, Edvaldo, Severino, Claudinho e outras tantas almas fora de seu devido lugar, num bairro pobre qualquer do mundo chamado São Miguel. Preferiu ficar entre os simples mortais, parceiros de lutas, alegrias e tristezas, que também procuram seu lugar ao sol, e deu sua contribuição honesta e valorosa a quem com ele quis aprender. Fica a minha dor, a minha saudade. Fica o meu respeito e o conforto de saber que ele irá se juntar em algum plano a outros caros amigos que há pouco também nos deixaram. E que sua obra permanecerá para sempre. Seu corpo descansou, sua alma continua viva. Seu nome não será esquecido. Raberuan, dê lembranças aos nossos amigos que o esperam. Peço a Deus que te abençoe e agradeço em nome de todos que ficaram pelo prazer e o privilégio de sua breve companhia.
Texto de José Vicente de Lima – 19.11.2011  . Poeta e escritor do Livro A(po)ética.Criador da pagina Viva MPA, onde resgata grande parte da obra do Movimento Popular de Arte-MPA de São Miguel Paulista, Artista plástico.




Itamar Assumpção e os negos ditos das metrópoles.

Músico vanguardista, ele levou a umbigada e a música caipira ao undigrudi paulistano. Desvelou a poesia concreta das esquinas – e o chão encharcado de sangue negro das cidades. Rebelde, nunca capitulou às leis do mercado e estereótipos


Uma proposta de escuta


A música pode afetar partes distintas de nosso cérebro como nenhuma outra manifestação artística. Através dela mobilizamos afetos, memórias, revivemos sentimentos bons e ruins. As músicas que nos rodeiam nos dizem muito sobre quem somos, o mundo em que vivemos e nosso meio social, mas nem sempre temos controle sobre o que escutamos e sobre nossas preferências auditivas, um mercado escolhe e escuta por nós. Portanto, ter uma escuta ativa é uma forma de afirmar nossa humanidade num mundo de objetificação em que somos apenas números.

No que se refere à obra de Itamar Assumpção, músico ligado à movimentação cultural que ficou conhecida como Vanguarda Paulista, não há nada que eu possa dizer que não seja melhor compreendido pela escuta atenta de suas músicas. Por isso, antes de ler, ouça.

Nesse momento em que vivemos relações extremamente mediadas, atravessadas por interferências, ruído branco, picotamentos e diálogos em áudio acelerado em 2x, a obra de Itamar Assumpção exige presença, nada mais que isso.
Track 01: Nego Dito

Se chamar a polícia eu viro uma
onça, eu quero matar
a boca espuma de ódio.
Eu vou cortar tua cara, vou
retalhá-la com navalha!

As frases acima caberiam na boca de qualquer pessoa negra do Brasil. Da minha já espumaram algumas vezes, confesso.

Mas faça você, prezadíssima leitora, o exercício de imaginar essas palavras ditas especificamente por um homem de um metro e noventa, negro, retinto, com uma feição séria, desafiadora e com olhos fixos na câmera ou no espectador. Esse homem é Nego Dito, apelido do perigoso marginal Benedito João dos Santos Silva Beleléu, a mais famosa criação de Itamar Assumpção, que, por meio dessa máscara-personagem, consegue dizer o que qualquer pessoa prudente jamais diria fora do espaço protegido pela suspensão da lógica social permitida pela performance e pela teatralidade.

Essas palavras podem ser lidas como um ensejo de resposta à violência estatal, simbólica e real, que por séculos vem sendo o pano de fundo da imagem de um Brasil pacífico e acolhedor, construída sobre o chão encharcado de sangue negro. A sanha de Beleléu é sintoma nacional e corre solta em São Paulo à midnight ou ao meio-dia.

Sintetizar a raiva, a dor, a revolta, a injustiça, o medo do futuro, a beleza extrema e a simplicidade absoluta eram habilidades que Itamar Assumpção tinha de sobra, num fazer de músico-ourives, cirúrgico, em que cada detalhe do arranjo, da letra, cada entoação da voz, cada trejeito no palco tinha significado. Nada era em vão.

Beleléu leléu eu, disco no qual Nego Dito pela primeira vez se manifesta, é um dos álbuns mais icônicos da música brasileira. Conceitual, a obra carrega quase todos os elementos que o músico aprofundaria ao longo de sua carreira: a teatralidade, a poética, o ritmo, as camadas de significado, a importância da oralidade, da palavra, o papel do contrabaixo e dos movimentos cíclicos. Um inegável trabalho de cientista musical, de um douto que desenvolveu metodologia própria e única.

Poderíamos ainda acrescentar ao rol das múltiplas capacidades artísticas de Itamar Assumpção a alcunha de poeta, mas isso ele – ironicamente – não era. “Grande Poeta-não” foi o apelido que carinhosamente recebeu e que resume um pouco de sua complexidade. Traquinas, positivando o NÃO – que ouviu diversas vezes em sua trajetória de músico independente – ao mesmo tempo que negativava o SIM. No país da escravatura, quem sempre concorda, perece.

“Entre o sim e o não, existe um vão.”
Track 02: Bom crioulo

Itamar Assumpção tinha uma relação complexa com o mercado de discos. Ao mesmo tempo que queria se fazer ouvido, televisionado e transmitido radiofonicamente, queria manter a propriedade sobre sua obra e era pouco afeito a concessões estéticas que o desrespeitassem como artista. No documentário Daquele instante em diante (2011), dirigido por Rogério Velloso, Arrigo Barnabé – companheiro de caminhada de Itamar – conta que, ao apresentar seu trabalho nas gravadoras, Itamar quase sempre tinha sua obra ignorada e era encorajado a gravar discos “de preto”: pontos de umbanda ou samba. De fato, ele gravou pontos e sambas, mas totalmente à revelia do que era esperado.

Em 20 de novembro de 1995 vinha a público o álbum Ataulfo Alves por Itamar Assumpção: pra sempre agora, fruto de um estudo intenso da obra do sambista mineiro. Nenhuma faixa nesse disco é de autoria de Itamar Assumpção, mas absolutamente todas têm sua marca indelével. Redesenhando arranjos, desconstruindo significados e fazendo inserções e comentários nas letras, o disco apresenta uma miscelânea de ritmos afrodiaspóricos que vão do jazz ao funk, passando pelo reggae e pelo rock, sem se apegar a nenhuma dessas linguagens. À tentativa de estereotipação, Itamar respondeu com fina ironia, subvertendo e brincando com o ritmo que é símbolo da nação e da modernização do país.
Itamar em show do disco “Ataulfo Alves por Itamar Assumpção: pra sempre agora, de 1996 (Foto:Mônica Bento/Acervo MUI.TA)Leia aqui...https://outraspalavras.net/poeticas/itamar-assumpcao-e-os-negos-ditos-das-metropoles/?fbclid=IwAR1nPiR1AgKj7b81vYSvym15CUPajGfgm4DJMXSzO-kHZOpcNLEvDruPF-s



terça-feira, 24 de agosto de 2021

Réquiem para a Mercearia São Pedro.

 


O ANÚNCIO DE FECHAMENTO DA ACADEMIA BRASILEIRA DAS LETRAS BÊBADAS DEIXA ÓRFÃOS EM TODAS AS ARTES.
POR XICO SÁ

Pois os bares nascem, vivem, parecem eternos a um determinado momento, e morrem. Morrem numa quarta-feira, como escreveu Paulo Mendes Campos, o mais melancólico dos bebedores de uísque da crônica brasileira. E foi justamente nesta quarta, só poderia ser uma quarta de agosto (18), que ficamos sabendo do fim da Mercearia São Pedro, depois de 53 anos de fuá e fuzuê na Vila Madalena, São Paulo. Era um dos bares mais cosmopolitas da cidade. Nas suas mesas, revi conterrâneos e conterrâneas do Cariri com quem não esbarrava havia séculos, brindei com Lia de Itamaracá, encontrei o roqueiro australiano Nick Cave e bebi com o cubano Pedro Juan Gutierrez, só para começo de conversa do meu enxerimento nostálgico.

Cobiçada havia muito tempo pelos barões do mercado imobiliário, a colina da rua Rodésia, especula-se, dará lugar a um prédio de luxo. O mesmo destino de outros tantos templos sagrados nas capitais. Foi-se a época em que nossos botequins duravam mais do que nossos fígados. Agora somos forçados a mudar de estabelecimento. Há quem diga que a Merça ainda terá uma sobrevida até o bate-estaca do novo condomínio, há quem ainda sonhe — algum freguês do bar Esperança — com a manutenção da casa com as portas abertas.

Difícil encontrar no mundo um bar que tenha rendido tantos livros, HQs, discos e filmes como a taberna da família Benuthe. Não à toa, o jornalista e escritor Jotabê Medeiros, o texto mais elegante da imprensa brasileira, sapecou, no site Farofafá: “Como talvez só o Cabaret Voltaire na Zurique dos anos 1910, ou o fictício Rick’s Café de Casablanca (não o real) dos anos 1940, ou o Floridita de Habana Vieja de meados dos anos 1950, ou ainda o CBGB de NYC dos píncaros dos anos 1970, a Mercearia São Pedro da Vila Madalena tem sido, desde 1968, o lugar em São Paulo em que se materializam os anseios de quem é fugitivo das catalogações ou quem procura asilo diplomático contra a padronização cultural”.

Academia brasileira das letras bêbadas, a Merça também era o lugar predileto dos boleiros filósofos, como o doutor Sócrates, o homem da Democracia Corinthiana. Com o craque (colega de mesa redonda no programa “Cartão Verde”) e o jornalista Vladir Lemos, bebíamos às segundas, mesma noite predileta do Mário Bortolotto, sempre no balcão, sob os ares da chapa quente do mestre Antônio.

Às quintas, mantive, sem falhar uma só noite por cinco anos, um encontro com o escritor mato-grossense Joca Reiners Terron e a editora cearense Isabel Santana — havia sido cupido do amor do casal, sob este mesmo teto de zinco quente. Ronaldo Bressane, Ivana Arruda Leite, Marcelino Freire, Adrienne Myrtes, Andrea Del Fuego, entre outras e outros bravos autores, por testemunha do conto que virou romance.

Corta para o refrigerador de picolés, nas proximidades da prateleira de Diabo Verde — desentupidor de pias e ralos. Lá está o Marçal Aquino, em diálogos nada platônicos com Paulo Lins. Ele repete a sua pergunta fatal: “Que horas essa gente escreve?” Faz todo sentido a irônica indagação do homem de “Baixo Esplendor”. Aquino atribui o chiste ao Rubem Fonseca, que não entendia como esse povo que vive nos botequins consegue publicar seus livros. Os mistérios do planeta, cantariam Os Novos Baianos.

Espumas flutuantes, mares de cerveja e histórias, caríssimo garçom França. Um dos últimos lançamentos épicos, pouco antes da pandemia, foi o de “Marrom e amarelo” (Alfaguara), livro de Paulo Scott. Nesta noite, com a produtora Larissa Zylbersztajn, batizamos nossa filha Irene como novíssima frequentadora do estabelecimento. O pastel de carne seca, uma iguaria abençoada da taverna, marcou a celebração ecumênica. O poeta Marcelo Ariel disse trechos de Shakespeare, e a atriz e escritora Morgana Kretzmann benzeu o momento.

Mil e uma noitadas que ficam boiando nas memórias alcoólicas. E é o cronista Paulo Mendes Campos que nos põe mais uma pedra de gelo à guisa de réquiem: “Recordá-los, os bares mortos, é contar a história de uma cidade”.

Em 2018, no aniversário de meio século da Mercearia São Pedro, foi publicado o “Saideira”, o livro dos epitáfios dos ilustres frequentadores. Preocupados com seus próprios fígados, os autores não imaginavam que o bar poderia morrer antes deles. E repare que elenco: Ademir Assunção, André Sant´Anna, Antonio Prata, arrudA, Bruno Brum, Caco Galhardo, Cadão Volpato, Chico Mattoso, Clara Averbuck, Douglas Diegues, Daniel Galera, Fábio Trummer, Fábio Victor , Fabrício Corsaletti, Fernanda Dumbra, Gabriel Bá & Fábio Bá, Marcelo Rubens Paiva, Laerte, Jorge Filholini, Matthew Shirts, Noemi Jaffe, Otto, entre outros & outras.

Nota de última hora. Marcos Benuthe, um dos donos da Merça, cineclubista eterno e maior promotor da literatura brasileira das últimas décadas, sopra aos ouvidos boêmios dos amigos: abrirá as portas da Ria, bar e livraria, nos arredores da mesma vila Madalena. Deus tomara, Evoé, Baco!


sexta-feira, 16 de julho de 2021

Não há democracia com extermínio em massa da população negra.

 

Nota pública da Oxfam Brasil sobre os dados do Anuário de Segurança Pública 2021 que revelam que 78,9% das pessoas mortas pela polícia no ano passado eram negras.

Como nos ensina Elza Soares, “a carne mais barata do mercado é a carne negra”. Também podemos dizer que é a carne mais visada pelas forças policiais do país. Segundo dados divulgados nesta quinta-feira (15/7), a polícia matou um total de 6.416 pessoas no Brasil em 2020 – um recorde. E desse total, 78,9% eram pessoas negras.

Os dados do Anuário de Segurança Pública 2021, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), são a face mais cruel do racismo que está entranhado nas estruturas do Estado brasileiro. Segundo o levantamento, as mortes por policiais aumentaram em 18 das 27 unidades da federação. Dados da nossa pesquisa Nós e as Desigualdades mostram que 84% dos brasileiros acreditam que a cor da pele influencia a decisão de uma abordagem policial. Os dados do levantamento do FBSP corroboram, na prática, essa percepção.

A população negra também é, segundo o levantamento, a maior vítima em outras categorias de mortes violentas intencionais, como homicídio doloso (75,8%), latrocínio (64,3%) e lesão corporal seguida de morte (75,3%).

Levando-se em conta os dados sobre a faixa etária das mortes por intervenção policial, os jovens são os mais atingidos: 44,8% das ocorrências em 2020 atingem quem tem entre 18 e 24 anos.

No Brasil, a população negra é desproporcionalmente impactada pela falta de saneamento básico e de acesso à saúde e à educação, além de ser mais duramente afetada pela fome e desemprego. Os dados do Anuário mostram que essa importante parcela da sociedade, que representa 54% dos brasileiros e brasileiras, é a mais visada pelo aparato de segurança pública. Segurança para quem?

Não há democracia com racismo. Não há democracia com assassinatos em série de pessoas negras.

A Oxfam Brasil se solidariza com todas as famílias que perderam entes queridos devido à violência policial. Vidas negras importam!

Letalidade policial é recorde no país; negros são 78% dos mortos...

 

Mesmo com a pandemia de covid-19 restringindo a movimentação de pessoas, nunca as forças policiais brasileiras mataram tanto quanto em 2020, segundo dados do Anuário de Segurança Pública. A publicação, organizada pelo FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), destaca que os negros foram as maiores vítimas de policiais — correspondem a 78,9% das 6.416 pessoas mortas por policiais no ano passado. O número de mortos por agentes de segurança aumentou em 18 das 27 unidades da federação, revelando um espraiamento da violência policial em todas as regiões do país....
Negros são maiores vítimas
Apesar de serem 56,3% da população brasileira, os negros são vítimas de 78,9% das mortes cometidas por policiais no país. Em sentido oposto, os brancos —que totalizam 42,7% da população — foram vítimas de 20,9% das mortes. Samira aponta que, além do racismo institucional presente nas corporações policiais, é preciso olhar esses índices como mais uma demonstração do racismo estrutural e da desigualdade racial no país, já que a população negra também é vulnerabilizada em uma série de outras questões, como acesso à renda e à moradia digna. "É impossível não falarmos de racismo estrutural e desigualdade racial quando olhamos os dados de violência no Brasil....

sábado, 12 de junho de 2021

Porque complexo de vira-lata?

            Arnaldo Bispo do Rosário

Porque complexo de vira-lata?

Esse pensamento só se dá porque, como na música "Querelas do Brasil", de Aldir Blanc e Mauricio Tapajos, eternizada na voz de Elis Regina, "O Brazil não conhece o Brasil / O Brasil nunca foi ao Brazil."
Não obstante a sutileza da letra, que coloca Brasil com "s" e Brazil com "z", referido-se ao estrangeiro, que não nos conhece e nem nos merece, eu agora refiro-me ao próprio Povo Brasileiro, que, por desconhecimento histórico, se desmerece e também o Brasil. Pois bem. Para lastrear meu pensamento, peço licença para fazer algumas comparações gerais do Brasil com os EUA desde os tempos coloniais.
A colonização do que hoje chamamos EUA, data do começo do século XVII, com a fundação da colônia da Virgínia, em 1607. Nas Treze Colônias, a colonização se deu em dois modelos: no Norte, a colonização de povoamento, baseado na agricultura familiar, no trabalho livre e na manufatura; já no Sul, a exemplo do que ocorreu no Brasil, se deu a colonização de exploração, baseada no "plantation", basicamente monocultura , latifúndio e trabalho escravo africano.
Ao contrário do colonizador Espanhol e Português, que eram extremamente controladores e vigilantes, os Ingleses deixaram as Treze Colônias -que iriam formar os EUA-, à vontade durante mais de cem anos, e mais à vontade ainda ficaram as Colônias do Norte, por ter clima temperado, portanto, com características geomorfoclimaticas da Europa, assim, o que produziam era facilmente encotrado também na Europa. A mão de obra era preponderante o trabalho livre e familiar, e as atividades econômicas de destaque eram a manufatura, a produção de navios e a pesca, e o mercado triangular era importante para a economia local, portanto, já faziam comércio com três Continentes. Esta leniência que a Inglaterra tinha com suas Colonias levou o nome de "Negligência Salutar", claro, salutar para os colonos que nadavam de braçada, trabalhando e acumulado para si e suas famílias, portanto, ao contrário do que se deu por aqui, o dinheiro ganho ficava nas colônias.
A Inglaterra só veio a ter um olhar mais vigilante para as Treze Colônias, em função da Guerra dos Sete Anos que teve com a França, conflito que ocorrereu entre 1756 e 1763 e, embora a Inglaterra tenha saído vitoriosa, ficou com suas finanças comprometidas e, inclusive antes do término da guerra, a partir de 1760, resolveu arrochar as Treze Colônias, com com taxas e altos impostos, a exemplo da Lei do Açúcar, Lei do Selo (sensura disfarçada para que o povo não soubesse das ideias iluministas), Lei da Hospedagem, enfim.
Tudo isso desagradou os colonos, que na festa do Chá de Boston, se disfarçaram de índios, invadiram um navio Inglês e jogaram ao mar toda a mercadoria com destino à Inglaterra. Depois desse episódio e demais que não não cabem aqui narrar, em 4 de julho de 1776, os colonos resolveram declarar a independência, que culminou com Revolução Americana, conflito que durou seis anos. A guerra foi tão sangrenta e tão longa que Jorge Washington, comandante das tropas formadas por fazendeiros, ferreiros, comerciantes, enfim, contra o Exército Inglês, traquejado no campo de batalha, escreveu no seu diário que se a ajuda francesa não viesse em duas semanas, eles perderian a guerra. Para a sorte deles, a ajuda da França veio, trazendo consigo também a Espanha. Essa decisão da França, de apoiar os colonos americanos enfraqueceu a economia francesa e foi um dos fatores para a Revolução Francesa de 1789, mas isso é tema para outro momento.
Para finalizar a minha singela intervenção, pontuo que a nossa colonização, ao contrário da que se deu nas Treze Colônias, foi somente de exploração, com as características que já descrevi acima, tendo uma vigilância e controle ferrenhos, além do chamado "Pacto Colonial" onde só podíamos comercializar com Portugal a preços baixíssimos e, para acabar de nos ferrar, fomos proibidos por Marques de Pombal de produzir manufaturas, e, por fim, a assinatura por D. João VI, em 1810, dos Tratados de Aliança e Amizade, que liquidou a soberania e a economia do Brasil e de Portugal, também, onde os produtos ingleses sofriam uma taxação de 15%, ou seja, abaixo da taxação dos produtos portugueses, que pagavam 16%, bem abaixo da dos demais países, que pagavam 24% em nossas alfândegas.
Some-se a isso, as nossas revoltas separatistas, encabeçadas pela elite escravagista, em regra não havia adesão popular, e quando houve, a exemplo, da Conjuração Baiana ou Revolta dos Alfaiates, quando se tocava na questão dos escravos, a elite deixava o povo à própria sorte, sem contar que jamais tivemos uma França e uma Espanha do nosso lado.
Não escrevo isso para que deitemos em berço esplêndido, ou para ficarmos como um cão sarnento lambendo feridas, porque a história foi de certa forma vilã com a gente (ela é assim), mas para que possamos refletir e, de cabeça erguida, pegarmos o timão dessa grande e poderosa nave chamada Brasil e fazermos jus à memória dos nossos antepassados (do que excluo a elite de ontem e de hoje), que jamais perderam a esperança e lutaram incansavelmente para nos trazer até aqui, sabendo que é ingenuidade pensar que as nações desenvolvidas querem o nosso bem.
Amigo é a puta que pariu!

Migalhas do bispo 12/06/2021.

Itamar Assumpção por Anelis Assumpção.

 



Era dia dos namorados. a essa altura, eu o visitava todos os dias. acamado, sem falar, cada dia ia perdendo um desejo. chorava muito. acenava pra que lhes colocássemos os óculos e ligássemos a tv para poder chorar sem que víssemos. as lágrimas sobre a pele do tom mais escuro deixavam um rastro de sal seco. não comia mais, não bebia água. a vida foi saindo. aquilo doía demais.
era dia dos namorados e levei uma bromélia pra ele. deixei na sala e segurando sua mão disse pra que não tivesse medo. ali prometi que cuidaria de nós. que sua jornada seria incrível noutro plano sem dor e que eu estava certa de que um panteão de pretos velhos, reis e rainhas de africas ancestrais estavam a lhe esperar. via a imagem de um trono e muitos deles envolta. o trono em que ele se sentaria e seria levado para um jardim para descansar ao sol desse corpo carma encarnado na terra. deixei essa imagem no silêncio de nosso embargo. pedi que não tivesse medo. me despedi de minha mãe, e fui pra casa amamentar Rubi.
todo o caminho da penha até pompéia, chorei.
quando cheguei em casa, o telefone fixo tocou. era minha mãe me dizendo: fica em paz minha filha, seu pai te esperou sair para sair tbm. o papai já foi - me disse com choro calmo.
eles ficaram sozinhos para a reflexão deste último dia dos namorados em que ela lavaria seu corpo, perfumaria e colocaria sua roupa predileta. ela o encheu de orquídeas por todo o corpo como um vaso fértil. ele era seu xaxim de sorte e revés.
desde lá, há dezessete anos, não tem um único dia em que eu não pense nele. e tento cumprir minha promessa de cuidar de nós com a esperança daquela imagem de luz, onde imagino ele a nos vigiar, leve, tocando violão num campo neon.
Itamar Assumpção
13/09/1949 - 12/06/2003
(Anelis Assumpção)