sábado, 12 de junho de 2021

Porque complexo de vira-lata?

            Arnaldo Bispo do Rosário

Porque complexo de vira-lata?

Esse pensamento só se dá porque, como na música "Querelas do Brasil", de Aldir Blanc e Mauricio Tapajos, eternizada na voz de Elis Regina, "O Brazil não conhece o Brasil / O Brasil nunca foi ao Brazil."
Não obstante a sutileza da letra, que coloca Brasil com "s" e Brazil com "z", referido-se ao estrangeiro, que não nos conhece e nem nos merece, eu agora refiro-me ao próprio Povo Brasileiro, que, por desconhecimento histórico, se desmerece e também o Brasil. Pois bem. Para lastrear meu pensamento, peço licença para fazer algumas comparações gerais do Brasil com os EUA desde os tempos coloniais.
A colonização do que hoje chamamos EUA, data do começo do século XVII, com a fundação da colônia da Virgínia, em 1607. Nas Treze Colônias, a colonização se deu em dois modelos: no Norte, a colonização de povoamento, baseado na agricultura familiar, no trabalho livre e na manufatura; já no Sul, a exemplo do que ocorreu no Brasil, se deu a colonização de exploração, baseada no "plantation", basicamente monocultura , latifúndio e trabalho escravo africano.
Ao contrário do colonizador Espanhol e Português, que eram extremamente controladores e vigilantes, os Ingleses deixaram as Treze Colônias -que iriam formar os EUA-, à vontade durante mais de cem anos, e mais à vontade ainda ficaram as Colônias do Norte, por ter clima temperado, portanto, com características geomorfoclimaticas da Europa, assim, o que produziam era facilmente encotrado também na Europa. A mão de obra era preponderante o trabalho livre e familiar, e as atividades econômicas de destaque eram a manufatura, a produção de navios e a pesca, e o mercado triangular era importante para a economia local, portanto, já faziam comércio com três Continentes. Esta leniência que a Inglaterra tinha com suas Colonias levou o nome de "Negligência Salutar", claro, salutar para os colonos que nadavam de braçada, trabalhando e acumulado para si e suas famílias, portanto, ao contrário do que se deu por aqui, o dinheiro ganho ficava nas colônias.
A Inglaterra só veio a ter um olhar mais vigilante para as Treze Colônias, em função da Guerra dos Sete Anos que teve com a França, conflito que ocorrereu entre 1756 e 1763 e, embora a Inglaterra tenha saído vitoriosa, ficou com suas finanças comprometidas e, inclusive antes do término da guerra, a partir de 1760, resolveu arrochar as Treze Colônias, com com taxas e altos impostos, a exemplo da Lei do Açúcar, Lei do Selo (sensura disfarçada para que o povo não soubesse das ideias iluministas), Lei da Hospedagem, enfim.
Tudo isso desagradou os colonos, que na festa do Chá de Boston, se disfarçaram de índios, invadiram um navio Inglês e jogaram ao mar toda a mercadoria com destino à Inglaterra. Depois desse episódio e demais que não não cabem aqui narrar, em 4 de julho de 1776, os colonos resolveram declarar a independência, que culminou com Revolução Americana, conflito que durou seis anos. A guerra foi tão sangrenta e tão longa que Jorge Washington, comandante das tropas formadas por fazendeiros, ferreiros, comerciantes, enfim, contra o Exército Inglês, traquejado no campo de batalha, escreveu no seu diário que se a ajuda francesa não viesse em duas semanas, eles perderian a guerra. Para a sorte deles, a ajuda da França veio, trazendo consigo também a Espanha. Essa decisão da França, de apoiar os colonos americanos enfraqueceu a economia francesa e foi um dos fatores para a Revolução Francesa de 1789, mas isso é tema para outro momento.
Para finalizar a minha singela intervenção, pontuo que a nossa colonização, ao contrário da que se deu nas Treze Colônias, foi somente de exploração, com as características que já descrevi acima, tendo uma vigilância e controle ferrenhos, além do chamado "Pacto Colonial" onde só podíamos comercializar com Portugal a preços baixíssimos e, para acabar de nos ferrar, fomos proibidos por Marques de Pombal de produzir manufaturas, e, por fim, a assinatura por D. João VI, em 1810, dos Tratados de Aliança e Amizade, que liquidou a soberania e a economia do Brasil e de Portugal, também, onde os produtos ingleses sofriam uma taxação de 15%, ou seja, abaixo da taxação dos produtos portugueses, que pagavam 16%, bem abaixo da dos demais países, que pagavam 24% em nossas alfândegas.
Some-se a isso, as nossas revoltas separatistas, encabeçadas pela elite escravagista, em regra não havia adesão popular, e quando houve, a exemplo, da Conjuração Baiana ou Revolta dos Alfaiates, quando se tocava na questão dos escravos, a elite deixava o povo à própria sorte, sem contar que jamais tivemos uma França e uma Espanha do nosso lado.
Não escrevo isso para que deitemos em berço esplêndido, ou para ficarmos como um cão sarnento lambendo feridas, porque a história foi de certa forma vilã com a gente (ela é assim), mas para que possamos refletir e, de cabeça erguida, pegarmos o timão dessa grande e poderosa nave chamada Brasil e fazermos jus à memória dos nossos antepassados (do que excluo a elite de ontem e de hoje), que jamais perderam a esperança e lutaram incansavelmente para nos trazer até aqui, sabendo que é ingenuidade pensar que as nações desenvolvidas querem o nosso bem.
Amigo é a puta que pariu!

Migalhas do bispo 12/06/2021.

Itamar Assumpção por Anelis Assumpção.

 



Era dia dos namorados. a essa altura, eu o visitava todos os dias. acamado, sem falar, cada dia ia perdendo um desejo. chorava muito. acenava pra que lhes colocássemos os óculos e ligássemos a tv para poder chorar sem que víssemos. as lágrimas sobre a pele do tom mais escuro deixavam um rastro de sal seco. não comia mais, não bebia água. a vida foi saindo. aquilo doía demais.
era dia dos namorados e levei uma bromélia pra ele. deixei na sala e segurando sua mão disse pra que não tivesse medo. ali prometi que cuidaria de nós. que sua jornada seria incrível noutro plano sem dor e que eu estava certa de que um panteão de pretos velhos, reis e rainhas de africas ancestrais estavam a lhe esperar. via a imagem de um trono e muitos deles envolta. o trono em que ele se sentaria e seria levado para um jardim para descansar ao sol desse corpo carma encarnado na terra. deixei essa imagem no silêncio de nosso embargo. pedi que não tivesse medo. me despedi de minha mãe, e fui pra casa amamentar Rubi.
todo o caminho da penha até pompéia, chorei.
quando cheguei em casa, o telefone fixo tocou. era minha mãe me dizendo: fica em paz minha filha, seu pai te esperou sair para sair tbm. o papai já foi - me disse com choro calmo.
eles ficaram sozinhos para a reflexão deste último dia dos namorados em que ela lavaria seu corpo, perfumaria e colocaria sua roupa predileta. ela o encheu de orquídeas por todo o corpo como um vaso fértil. ele era seu xaxim de sorte e revés.
desde lá, há dezessete anos, não tem um único dia em que eu não pense nele. e tento cumprir minha promessa de cuidar de nós com a esperança daquela imagem de luz, onde imagino ele a nos vigiar, leve, tocando violão num campo neon.
Itamar Assumpção
13/09/1949 - 12/06/2003
(Anelis Assumpção)

quinta-feira, 10 de junho de 2021

RACISMO e ÓDIO em sua forma mais BRUTA.

 


Kathlen Romeu: mulher, mãe, negra e mais uma vítima do Estado   Policial .


“A deputada Andréia de Jesus acaba de sofrer um ataque dos mais vis que já presenciei em 6 anos trabalhando com assessoria parlamentar. Ela pediu um minuto de silêncio pela jovem Kehtlen Romeu, mulher negra, gestante, que tombou com uma bala na cabeça em mais uma dessas desastrosas operações policiais no Rio.  Ela ainda disse que estão matando o futuro desse país, em referência à jovem. 

Tivemos que ouvir de dois deputados da direita que: a) a polícia só mata quem merece morrer; b) que a deputada, mulher negra, advogada popular, "precisava estudar" , que c) os "cidadãos de bem" concordam com toda a atividade policial e que d) esses jovens só seriam o futuro de uma pátria criminosa.

Atacam a honra da deputada e a memória de Kehtlen e de outros tantos jovens negros que tombaram em operações policiais sem piscar.


Tudo isso foi dito com a baba branca de ódio habitual no canto da boca, com os olhos injetados e com a conhecida gestualística violenta, de quem quer ter razão pela força do grito.

O fascismo não suporta ouvir a fala de uma mulher preta sem o tradicional esperneio, mas os limites da atividade parlamentar aqui, foram ultrapassados, e muito. 

Mandar uma mulher negra, deputada, advogada popular estudar, não é apenas arrogância pura e simples: é racismo. 

Há tempos que não escrevo por aqui, mas a indignação é muita. Repassem, façam ressoar. Não podemos compactuar com esse tipo de atitude em uma democracia, ainda que imperfeita, como a nossa.” - Pedro Munhoz, assessor da deputada.



quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Morte e Vida Severina em Desenho Animado (Original)

Morte e Vida Severina mostra a saga de um retirante nordestino que, como tantos brasileiros, viaja do sertão ao litoral em busca de melhores condições de vida. A história de Severino, contada por meio de versos na obra-prima de João Cabral de Melo Neto, foi adaptada para os quadrinhos pelo cartunista Miguel Falcão e é retratada nesta animação 3D. O desenho animado preserva o texto original e, fiel à aspereza do texto e aos traços dos quadrinhos, dá vida aos personagens do auto de natal pernambucano que foi publicado em 1956.



Ficha técnica
Ano de produção: 2010
Duração: 52 min.
País: Brasil
Direção: Afonso Serpa
Ilustrações/HQ: Miguel Falcão
Adaptação: obra homônima de João Cabral
Voz: Gero Camilo
Trilha sonora: Lucas Santtana
Produção: TV Escola / OZI / FUNDAJ – Fundação Joaquim Nabuco
Público-alvo: Aluno
Faixa etária: 16-18
Área temática: Diversidade Cultural, Geografia, LiteraturaMorte e Vida Severina (em desenho animado)

“…E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.”
– João Cabral de Melo Neto, trecho “Morte e Vida Severina”. (1967)